Apesar da amplitude política do episódio envolvendo a Venezuela e o julgamento de Nicolás Maduro em Nova York, nesta segunda-feira (05), os mercados financeiros mostraram pouca reação nos preços. Segundo o economista Felippe Serigati, pesquisador do Centro de Agronegócios da Fundação Getulio Vargas (FGVAgro), a movimentação “ainda não fez preço no mercado”.
“Apesar da intensidade do evento, da cobertura que a imprensa tem feito, esse movimento não fez preço no mercado”, afirma Serigati, destacando que nem o dólar se movimentou frente a outras moedas, nem o preço do petróleo, que chegou a oscilar cerca de **0,82% sem variação fora do padrão”, o que, segundo ele, “para o petróleo não é nada absurdo”.
Sobre os indicadores de risco, ele acrescenta: “Antes de conversar aqui, eu olhei o VIX, o índice do medo. Cara, super tranquilo, não se movimentou”, indicando que o mercado financeiro ainda não incorporou os efeitos como um choque de risco sistêmico.
Segundo Serigati, isso não significa ausência de consequências, mas que os efeitos podem surgir ao longo do tempo: “Provavelmente essas consequências vão vir depois… é mais um fato agora bem relevante do quanto as regras internacionais não têm sido mais respeitadas, inclusive pelas grandes potências”, diz o economista.
Outra análise, do economista Francisco Vila, interpreta o episódio como decisão estratégica de política externa, não um impacto imediato de energia. Para ele, “não é de imediato uma medida provocada por ou provocadora do mercado de petróleo, pois o preço está calmo, devido à maior oferta”. Vila também contextualiza a ação como parte de um movimento para “dificultar o fornecimento do petróleo especial para a China”, mesmo que apenas cerca de 9% desse petróleo vá para aquele destino, mas de qualidade específica.
Vila argumenta que, além da energia, há dimensão geopolítica: “China e a Rússia investiram bastante na infraestrutura de portos, etc., naquele país. Os EUA irão ocupar o setor de petróleo e aproveitar desses investimentos”.
Sobre o impacto econômico direto no Brasil, Vila observa que “não vejo problemas imediatos para o agro, pois os fertilizantes vêm de outros países e a pressão sobre o preço do petróleo deve continuar baixa”.
Para ambos os especialistas, o principal efeito observado até agora é a maior incerteza, e não um choque de preços no mercado global.
No comércio externo brasileiro, o agronegócio mantém relações com a Venezuela: o Brasil exporta produtos como milho, açúcar, óleos vegetais e alimentos, um fluxo que já ultrapassou US$ 1 bilhão em anos recentes.
