A gente aqui não é da opinião de que pimenta no olho dos outros é refresco, mas independentemente disso, na vida e na lida burrice e valentia vazia têm preço, e a volta do chicote no lombo de quem mandou chicotear pode ser bem dolorida. O caso é que, por uma conjuminância de várias circunstâncias, incluindo uma grave inquerência com a natureza, questões sanitárias e decisões que espancam a inteligência, o carretão da pecuária dos Estados Unidos tá atolado no brejo, o preço da carne tá em alturas estratosféricas e a população, junto com os fazendeiros, tão pagando a conta desta infeliz combinação. O começo e o motivo principal deste desengano atual foi uma sequência de secas catastróficas nas principais regiões de criação do gigante nortista, que aumentaram absurdamente o custo do pecuarista e derrubaram a capacidade de produção nas propriedades.
Pra não ficar esticando muito a prosa, o resultado é que hoje o tamanho do rebanho do país norte-americano é o menor da história, né. Aí, se o ciclo natural da atividade tivesse sendo seguido e respeitado, agora seria a hora de segurar fêmea na fazenda pra fazer vacada parideira e aproveitar a forte valorização do gado de reposição. O problema é que isso não tá acontecendo, e a explicação é que a carestia de mercadoria tá tão grande e o preço dos animais subiu tanto que o fazendeiro estadunidense tá preferindo vender as novilhas e pegar já este dinheiro, do que esperar o tempo carecido pra que elas cheguem à maturidade, sejam emprenhadas e entreguem um bezerro, que só vai chegar no frigorífico daqui a dois anos e meio, pelo menos. O caso é que tá todo mundo muito apertado, e considerando que a precisão é urgente, ninguém tá querendo trocar o que já tá seguro pela incerteza do futuro.
Com esta extraordinária redução na oferta de animais novos, nos últimos anos os Estados Unidos tavam a importando muito gado vivo do México, pra sustentar seus confinamentos, mas agora apareceu lá uma praga nova e devastadora, a mosca da bicheira do novo mundo, e eles tiveram de fechar a fronteira. Por conta disso, um milhão de cabeças vão deixar de entrar no país e não vão virar carne na mesa do consumidor. Aí, no meio de todo esse furdúncio, o descompensado socialmente que é o presidente lá deles resolveu cometer uma agressão tarifária que praticamente fechou a porteira pra carne brasileira. Agora, em vez de comprar da gente, que tem uma arroba de US$56,70, eles tão tendo de aumentar as importações da Austrália, com o boi a US$82,60, do Uruguai, a US$82,50, e do Paraguai, a US$72,40. Eita, que conta mais mal feita, né.
